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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pedidos da noite


Se de repente eu começar a levantar às três da manhã para escrever num caderno as peripécias dos sonhos da vida real, significa que eu estou, e sou, naquele momento, minha fragrância idiomática e sintética.
- Faz meus pesadelos virarem poesia, papel.
- Faz meus sonhos encantados de escuridão virarem páginas inteiras, de vontade inserida em versos.
A vontade que induz qualquer mão...
Não sou apenas eu que peço, é a noite, ela escurece para algo renascer de manhã.


Naiane Julie
Outono 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011


Para você que melhor se enquadra nesta poesia, melhor do que qualquer pessoa que já conhecí. Se você ainda a tem presa no quadro de fotos do seu quarto, é porque sabe que é verossímil o que estou falando.
Eu tenho muito o que lembrar...


CANTO CIGANO

Seus cabelos,
Balançavam com o vento.
Ela dançava,
Dançava de dia,
Dançava de tarde,
Dançava à noite.
À noite,
Enquanto os archotes brilhavam,
E punham nela muitos fulgores,
Ela sorria e sorria...

Para quem sorria?
Para ninguém.
Bastava, para ela,
Sorrir para si mesma.
Sorria...
Sufocando o pranto,
Que lhe inundava a alma.
Porque, se ela chorasse,
Todos choravam também.

E ela tinha que sorrir,
Cantar,
Dançar.
Bailando,
Como baila o vento,
Cantando,
Como cantam as aves,
Só, tão só...

E, no entanto, dona absoluta,
De todos os olhares,
De todas as mentes,
Que estavam ali.
Cada um achando,
Que era para eles que ela sorria,
Quando, na verdade,
Ela não sorria para ninguém,
Ela sorria para si mesma.

O tempo passou...
E, no vento tão forte,
Que muda a vida,
Mudando as pessoas de lugar,
Daqui para acolá.

Um dia,
Ela deixou de dançar,
Mas não deixou de cantar.
Mesmo na solidão dos pinheiros gelados,
Fazia, com os rouxinóis,
Um dueto encantado.

O rouxinol cantava de tristeza,
Ela cantava de saudade,
De dor...

Por onde andará?
Como estará a terra dos meus amores?
Aonde estarão aqueles,
Que pisam, firme, o chão?
Aonde estará o meu povo?
Será que estão como eu...
Na solidão?

Canta, cigana,
Canta...
Deixa que o vento da vida te carregue,
Que a brisa te abrace
E que as folhas te teçam arpejos,
Nos ninhos dos pássaros.

A solidão nos faz
Aprender a viver,
Dentro de nós,
Num castelo encantado.

Onde se é possível,
Chorar sozinha
E rir, feliz,
Para todos os passantes,
Caminhantes,
Andantes de muitas terras,
De muitos sonhos,
De muitas estradas.

Deixa voar,
O seu sonho de paz,
Porque, um dia, você terá.

Não chore,
Não chore, cigana,
Cante.
Porque, mesmo sem cantar,
Você encanta.
E, mesmo chorando,
Você sorri.

Deixa o tempo passar,
Deixa as folhas voar,
Voar...
Porque, um dia,
Paz você terá!

   
Cecília Meireles

sábado, 14 de maio de 2011

Sonho

        

         Os sonhos sempre foram muito intensos na minha vida. E quando falo em sonho neste momento é do sonho que se tem quando estamos dormindo, involuntários até certo ponto e incontroláveis. Esses instáveis.
        Pesquisei. E nos dias em que lia sobre o assunto, à noite sonhava com uma corda gigante com a qual laçava nuvens, mas elas tinham mais força e me arrastavam. Depois disso resolví fazer com meus sonhos o que faço com o que me excede: escrever.
        Já descreví alguns deles em pequenos trechos e estão sempre lá em uma ou outra nota de um texto. Mas descrevo integralmente poucos. Tento extrair deles o sentido poético que porventura consiga compreender. Já tive muitas vezes a impressão, especialmente quando consigo lembrar-me com clareza deles, que não são meus. Como se todos os sonhos tivessem um lugar só deles, e todos eles pertencessem a todas as pessoas, como se fosse essa mais uma das formas de nos ligarmos enquanto humanos e iguais.
        É assim também quando sonho com você. E ainda acordo com a sensação de que tivemos o mesmo sonho no mesmo momento, aparentemente ilógico, mas eu sinto.
        Escrevo como leigo da mente humana, de todas as respostas já encontradas. Mas a poesia como dominio para além do conhecimento científico foi a forma subjetiva que escolhí dessa vez.
       Eles são meu movimento sísmico da energia que origina a matéria, ilustração da força involuntária, organização molecular das farpas mágicas.....
.... Ah! Eu sonho, logo existo.


Naiane Julie
Outono 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

1ª CRÔNICA: Antes de levantar

      

     'As paredes do quarto são caramelo', ela pensou. Poderia pensar que as paredes eram amarelo velho, branco sujo, mas preferiu pensar em um doce que também pode significar uma cor. Depois, seus pensamentos foram vagando mais longe e pensou sobre  há quanto tempo fazia aquilo. Transformava tudo numa fantasia doce, um melado. Sentiu-se feliz por ter consciência do que fazia, assim não seria a Macabéa de sua época, mais uma das muitas. Era difícil ver a parede velha, descascando. O espelho distorcido, não a imagem.
      Era hora de despertar, ela ouvia o vento do inverno chegando depressa. As crianças já estavam indo pra escola, podia ouvir o barulho de sua gritaria na rua, mesmo sendo ainda tão cedo, malefícios de se morar na periferia, mas pelo menos, sabia que era hora de levantar. Logo seu amigo estaria  gritando no portão, batendo o estojo de lata amassado.
     Percebeu que não queria de maneira alguma se mexer debaixo das cobertas, embora estivesse 'de barriga pra cima', pronta para levantar. Ouviu as árvores balançando lá fora, as folhas batendo, fazendo um ruído de paz. Lembrou-se do ano passado na escola, um dia em que sua amiga descreveu uma manhã e ela pode fazer um quadro mental. Descreveu assim:
    -  Eu estava deitada ainda, o Sol entrou pelas frestras da janela irradiando nos meus olhos. Como eu estava com os olhos fechados, vi uma sombra vermelha, então fui abrindo os olhos devagar. Depois, eu ouví o som do vento fazendo as folhas das árvores balançarem. Eu me sentí tão bem, tão grata, satisfeita mesmo de poder.... não ria disso.... de estar viva pra sentir o Sol do começo da manhã.
      Ela não riria. Na verdade, ela pensou como aquela descrição, algum dia, ficaria bem em um livro, talvez em uma crônica.
     Era hora de levantar.



Naiane Julie